Já faz um tempo em que não venho cá com alguma ideia para escrever. Sentindo-me sempre vazio delas a impressão era de que já tinha falado demais. No entanto o que percebo é que esta agonia pela qual passei com as ideias tem toda a razão de ser. Como estes textos em nada tem de ficcional como poderia eu extrair da realidade alguma coisa genuinamente original? Não que eu já tenha falado de tudo, mas num único post desses me esforço demais para não deixar nada de fora. Acaba que ao tentar não me repetir tenho de me silenciar.

Vou ser sincero quanto à minha mente. Esta é frenética. Observa tudo e todas as coisas procurando formas e significados, adicionando significantes e possibilidades e quando não tem nada para se extrair cria possibilidades além da realidade só para não parar de funcionar. Essa intensidade é muito cansativa às vezes, principalmente na hora de dormir, mas eu não diria que tenho insônia por causa disso. Acabo que me divirto com o que surge e no embalo já tenho pano de fundo pra um sonho louco qualquer. No entanto eis que vez ou outra tenho de me forçar a calar-me internamente. Não por que eu não consiga foco, muito pelo contrário, esse excesso todo não me atrapalha nesse quesito, mas por precisar de silêncio, daqueles onde escutamos o som do nada. Curiosa essa imagem que veio agora, mas de fato não ficamos no silêncio total nunca, percebem?! Mesmo assim esse pouco som é extremamente interessante, acaba que funciona melhor do que as 8h de sono habituais, na maioria das vezes. Curiosamente esse silêncio trás consigo uma quietude profunda que alimenta as ideias de outra forma, faz com que as tolices percam força deixando o que de fato é válido vir à superfície.
Para quem tem costume de ler já deve ter sentido quando a cabeça esquenta de tanta informação que se processa. Pode parecer exagero de minha parte, mas a sensação é exatamente essa. Nesse momento fechamos o livro ou os olhos e respiramos esperando que caia de qualquer canto um pote d’água no cérebro e nós dê um alívio imediato. Parece terrível, mas é até divertido como o corpo reage. No entanto em poucos instantes estamos pronto novamente para absorver cada vez mais. E assim continua nossa vida. Chega um momento que isso até parece que foi devaneio e demora pra ocorrer novamente, mas acontece. Assim o silêncio nesses casos serve como um pote de água fria. Muito funcional sem dúvidas.
Às vezes tenho impressão que muita gente não consegue silenciar-se, não digo exteriormente, refiro-me ao interior. Uma coisa curiosa nesse ponto é que se conseguimos essa habilidade interna o mundo pode estar ensurdecedor que isso de algum modo não nos incomodará tanto assim. Para se ter uma ideia, apesar de músico eu tenho uma certa “baixa” tolerância a som alto demais. Claro que meu som baixo é muitas vezes considerado alto, mas quando falo algo alto, falo de algo ensurdecedor como um trio ou qualquer outra coisa que vá além dos 7 mil watts de potência, coisa absurda já no valor, e quando falo de som alto me refiro também à barulho.

Sei que nem sempre conseguimos uns segundos para parar de fato e é por isso que aconselho agora a prática da contemplação. Sentar-se durante alguns instantes, logo quando acorda ou antes de dormir, de boca fechada (sem pensamentos analíticos) observando o horizonte e tudo o mais que estiver entre você e ele ajuda deveras a conseguirmos em alguns segundos alívio, coisa que para outros sem prática nesse quesito levaria alguns minutos e olhe lá.

Sendo assim aceite o fato de que não somos máquinas e precisamos de descanso. Perceba também que dormir nem sempre significa que a mente vá parar o que facilmente explica o fato de nem sempre descansarmos de fato, mesmo dormindo devidamente confortáveis e pelo período de tempo necessário. É de fato mais do que necessário, é imprescindível que calemos a mente por alguns instantes para podermos respirar o novo como novo num próximo momento. Como Eliphas Levi coloca:
O equilíbrio é a resultante de duas forças. Se as duas forças são absolutamente e sempre iguais, o equilíbrio será a imobilidade, e, por conseguinte, a negação da vida. O movimento é o resultado de uma preponderância alternada.